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Adamastor de cócoras
  Data/Hora: 4.ago.2014 - 11h 33 - Colunista: Bruno Peron  
 
 
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Bruno Peron

 

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) anunciou que o Brasil melhorou um pouco sua colocação no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e situa-se agora em 79º lugar. A melhora desta colocação se deve a alguns avanços em indicadores econômicos e sociais brasileiros, mas também à mudança de método da Organização das Nações Unidas (ONU) para avaliar o desenvolvimento de 187 países. Vale lembrar que o PNUD havia classificado o Brasil em 85º em 2013.


O IDH calcula-se através de três medidores: escolaridade (tempo que se passa na escola), expectativa de vida e renda individual (mas que se calcula como uma média). A ONU, após ter aplicado seus medidores em 2014, calculou que os brasileiros vivem em média 73,9 anos, estudam durante 7,2 anos e ganham 14.275 dólares por ano. No entanto, críticos deste método consideram que o Brasil sofreria queda de um terço de seu IDH se suas desigualdades econômicas e sociais fossem consideradas, já que estes números refletem uma média nacional.


Enfatizo que o IDH brasileiro está abaixo do de outros países sul-americanos: Venezuela (67º), Chile (41º), Argentina (49º) e Uruguai (50º). Ainda, o PNUD considera que apenas cinco países nosso-americanos melhoraram sua posição no IDH: Panamá, Suriname, Chile, Brasil e Uruguai. Medidores de desenvolvimento como o do PNUD ajudam-nos a pensar sobre as divisões que maculam o Brasil e perturbam a interação harmônica entre os setores de cima e os de baixo.


Não basta somente que o Brasil bata seus recordes de exportação (como o da soja, que congestiona os portos) e seja um aliciador de investidores (alguns nacionais e muitos estrangeiros) enquanto sua população vive realidades divergentes. Assim, não digo somente que o Brasil é um país desigual. Ele é dividido econômica, ideológica e socialmente.


Ainda com suas divisões internas, o país sinaliza um IDH de 79º lugar. No entanto, este índice poderia ser muito mais alto ou muito mais baixo em função do grupo populacional que se considere. Por isso, há pessoas que estão sempre dispostas a comprar as novidades tecnológicas que importamos (principalmente em comunicação) enquanto outras apenas sonham em tê-las e outras partem para a criminalidade e atrevem-se a tirar o sossego de quem as pode ter.


Além disso, o Brasil imagina-se diferentemente por cada brasileiro. Para dizê-lo de maneira simplificada, há aqueles que depositam toda confiança no Estado como um padrasto multitetas, enquanto outros apostam no mercado e seu potencial de negócios. Esta dissidência repercute nos candidatos favoritos à Presidência e na aptidão que eles têm de aparentar ser tão distintos.


Neste momento, o Brasil precisa corrigir os rumos de seus pirralhos que crescem sem estudos, ouvem brigas familiares e convivem com a escassez no lar. Por isso aqueles que criticam programas de transferência de renda (como o Bolsa Família) deveriam colocar-se no lugar de quem chora por recursos para comprar materiais escolares e alimentos industrializados.


Pena daqueles que não aproveitam bem este incentivo tão merecido! Não deveriam desperdiçar as oportunidades mínimas que aparecem e correr o risco de perpetuar a escassez em suas famílias. Piores são aqueles que se desestimulam ao trabalho dignificante. Muitos preferem tramar golpes (por exemplo: ligações telefônicas e cartas fraudulentas para obter dados pessoais) e roubos (como o da fábrica da Samsung em Campinas em julho de 2014) a arquitetar uma vida inicialmente árdua, mas claramente justa e logo recompensadora.


É preciso posicionar, da forma mais rápida possível, os guias do Brasil em volta da mesa a fim de retomar as discussões sobre seu desenvolvimento e suas desigualdades inibidoras. Nesta reunião, não haverá preconceitos, já que comediantes e jogadores de futebol têm sido deputados mais inspiradores e sérios que muitos políticos de carreira no Mamódromo Nacional.


A colocação ruim do Brasil no IDH sugere que a sociedade articule-se com prontidão para reinventar os rumos de seus meio-cidadãos. A meu ver, dinheiro público tem que investir-se pesadamente em educação de crianças e no estímulo ao trabalho empreendedor.


Desta forma, é preciso que entrem riquezas no Brasil, que mude a mentalidade de seus trabalhadores e que se cultive uma interação cidadã e complementar entre as pessoas. Por enquanto, o Brasil é um adamastor de cócoras, grande mas sujeito à pequenez.


Leitor, nosso trabalho pelo Brasil apenas começa.


Avive sua consciência antes de virar esta página.

 

http://www.brunoperon.com.br

 
     
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