Por José Garcia de Souza, via grupo do Celeopa - Centro de Letras do Oeste do Paraná
Lembro-me de uma missão em que fui ajudar um colega de trabalho numa cidade de região de fronteiras com o Paraguai e Argentina. Era uma cidade pequena, com pouca estrutura hoteleira, mas com fluxo considerável de viajantes.
Depois de uma pequena madrugada no trajeto e mais meia jornada de trabalho, o colega, preocupado com minha comodidade, apresentou-me a um hotel e me indicou também o restaurante. Ambos no centro da cidade.
Almocei. Comi feijoada, contrariando meus costumes, do tempo de cidade grande, de comer feijoada somente nas quartas ou nos sábados. Mais duas vezes que almocei naquele restaurante, que me havia sido apresentado como o melhor da cidade, encontrei ainda resquícios da feijoada da segunda-feira. Pra minha surpresa, naquela terceira e última vez que lá almocei, embora não encontrasse mais nenhuma das partes do porco, algumas folhas de louro e feijão preto, misturados a um novo feijão carioca, denunciavam o prato duas vezes amanhecido. Mudei de restaurante.
Voltando àquela tarde do primeiro dia, quando me apresentei ao hotel, meu aposento já não era o mesmo quarto que havia reservado ao meio dia. O cansaço daquela jornada me fez aceitar a troca, a ir à procura de outro hotel.
O quarto em si não aparentava todo ruim. Ar condicionado, frigobar, banheiro e um televisor. Como era período de meia estação, o ar, pra mim, não fazia diferença. Ainda mais quando não se sabe se sua limpeza é tempestiva e adequada. O frigobar era daqueles de idade avançada, com mais de trinta anos. Este sim fez a diferença! Cada vez de acionar o motor, dava um tranco que eu me acordava de sobressalto, lembrando-me da janela sem trancas que abria sobre um telhado que dava na calçada da rua. O televisor nem fiquei sabendo se funcionava.
O banheiro mereceria uma página, mas por amor ao leitor, deixo por um parágrafo. Eu jamais havia tomado um banho com tanta escassez de água! Os chuviscos, além de finos, eram ralos e, consequentemente, distantes entre si. Pouquíssimos pingos, como se não bastasse, água fria. Banho mal tomado e noite mal dormida. No dia seguinte, levantei mais cedo, retirei a tampa do chuveiro e com um alfinete desobstruí todos os furos, tomando uma ducha fria, não com abundância de água porque a pressão não ajudava.
Havia ainda esperança de tomar um bom café. Mas, no trajeto para o café fui abordado pelo porteiro com palavras ríspidas:
- Aquele pálio branco é do senhor?
- Sim! – Respondi. E aguardei alguma observação. Como nada disse, perguntei-lhe:
- Por quê?
- Devia estar estacionado do outro lado!
Nada eu disse! Não compensava. Do outro lado, quando cheguei, havia um varal cheio de roupas. E havia mais carros estacionados do mesmo lado que deixei o meu.
Passado mais esse incidente, partia para minha última chance: O café. Tudo o que eu queria era tomar um bom café e abraçar aquela jornada que me esperava. Afinal, o trabalho dignifica o homem!
Fui começar pelas frutas. Havia apenas banana, mas peguei agradecido. Passei ao pão francês. Gosto de degustá-lo! Em cada padaria e em cada cidade, encontra-se esse alimento com sabores e texturas diferentes, embora com os mesmos ingredientes. Mas não havia nata nem manteiga. Só margarina. E era já um tempo em que as pessoas mais informadas evitavam o consumo de margarinas e tantos outros itens industrializados como os refrigerantes.
Corri o olhar, havia apenas outro tipo de pão. Gosto dos alimentos típicos de cada região. Procurei por uma broa, uma cuca. Sei lá, um pudim, nada mais! Peguei o café com leite e me sentei. Quando tomei o primeiro gole, achei estranho. Não havia gosto de leite nem de café. Fiz um teste, peguei um pouco de leite e provei, mas era pura água. Não tinha gosto de leite. Fiz a mesma coisa com o café. Verdadeira “água de batata”. Então, entendi onde estava a água que faltava no chuveiro.
No entanto, dessa vez, a verdadeira gota d’água que fez a diferença, que me levou a acertar a conta e me mudar de hotel, foi a ríspida, mas bendita conversa sobre o estacionamento.