Por Luciana Carreira,
Há pessoas que conhecemos de perto — e há aquelas que chegam até nós pelas histórias que permanecem vivas na memória de quem as amou - familiares e amigos. João Batista de Lima, me foi apresentado assim: não pelo convívio direto, mas pela delicadeza das lembranças compartilhadas por seus familiares e um amigo em comum. E, curiosamente, há presenças que, mesmo indiretas, se tornam profundamente nítidas.
Hoje, 21 de abril, data em que celebraria seus 80 anos, sua ausência ganha contornos ainda mais sensíveis. Não apenas pelo homem público que foi — ex-vereador de São Miguel do Iguaçu em tempos desafiadores na década de 70, quando o município ainda desenhava seus próprios caminhos —, mas, sobretudo, pelo homem que habitava por trás dos cargos: firme em suas convicções, generoso em suas atitudes e profundamente humano em sua forma de existir. Em 1985 foi para o Mato Grosso e trabalhou na Amaggi por alguns anos. Em seguida, abriu a empresa Brascor Seguros, que atua no mercado segurador há mais de 20 anos. Em 2003, o empresário começou a integrar a diretoria do União Esporte Clube e foi presidente em 2008 e 2009.
Ouvi dizer que João Batista de Lima — conhecido como Joãozinho do Trânsito e posteriormente Joãozinho da Brascor, como tantos o chamavam com afeto — tinha o raro dom de abraçar causas com inteireza. Não pela vaidade de defendê-las, mas pela convicção silenciosa de que aquilo que é justo merece ser levado até o fim. Foi assim na política, foi assim na vida. E talvez tenha sido essa coerência que o tornou um dos nomes mais lembrados e respeitados de sua época.
Mas é nas pequenas histórias que sua grandeza mais se revela.
João Maria Teixeira da Silva, jornalista e escritor de São Miguel do Iguaçu, seu grande amigo, contou-me que aos 19 anos, sentado ao seu lado dentro de um carro, carregando dúvidas sobre o futuro e o desejo de construir uma família. Joãozinho não respondeu com pressa. Parou o carro, silenciou o mundo por um instante e, com a serenidade de quem entende o peso das escolhas, disse apenas o essencial: que certas decisões só podem ser respondidas por quem as vive. E, no gesto seguinte, ofereceu não apenas apoio, mas celebração — transformando aquele momento em uma promessa de alegria. E cumpriu. Há uma beleza imensa em quem não apenas aconselha, mas sustenta com ações aquilo que acredita.
Também me foi falado de sua relação com os livros — e de como enxergava na leitura um gesto de expansão, nunca de posse. Quando percebeu que um exemplar havia sido levado de sua estante sem aviso, não reagiu com repreensão, mas com curiosidade. E, ao descobrir o leitor, o então funcionário e amigo João Maria, ofereceu não cobrança, mas incentivo. Como se soubesse que partilhar conhecimento é, de algum modo, perpetuar-se.
Talvez essa fosse uma de suas maiores virtudes: a capacidade de transformar situações comuns em encontros significativos. De ensinar sem impor. De corrigir sem ferir. De acolher sem fazer alarde.
Seu amigo de longa data, João Maria, ainda me confidenciou uma frase que Joãozinho repetia com frequência — e que, de alguma forma, parece sintetizar tudo o que ele foi: a necessidade de um respeito profundo por todos os seres humanos. Há, nessa ideia simples, uma sofisticação rara. Porque respeitar verdadeiramente exige consciência, exige humildade, exige coragem.
E há ainda algo que me tocou de forma particular: os sonhos de João Maria com o amigo João Batista, nos últimos dias, ele apareceu em sonhos — sereno, sorridente, como quem carrega uma paz que não cabe mais nas palavras. Em outro momento, em silêncio, apenas abriu cortinas, como se deixasse a luz entrar. Gosto de pensar que certos gestos, mesmo nos territórios do invisível, continuam sendo formas de cuidado com os entes amados.
Escrevo, portanto, não como quem conheceu João Batista de Lima em vida, mas como quem reconhece, através do olhar de outro, a dimensão de sua presença. Porque existem pessoas que não precisam ser nossas para nos atravessarem. Basta que tenham sido, verdadeiramente, de alguém.
E ele foi da família e dos tantos amigos que o cercavam com carinho.

Que sua memória siga habitando os detalhes — nos gestos repetidos, nas frases lembradas, nas histórias contadas com um sorriso que mistura saudade e gratidão. Porque, no fim, talvez seja isso que permanece: aquilo que fomos capazes de semear no outro.
E, pelo que me foi contado, João semeou muito esses gestos.