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  BASTA UMA CANETA AZUL  
  Publicado em 26 de Junho de 2026  
 
   
 
 
 
BASTA UMA CANETA AZUL

por Dartagnan da Silva Zanela (*)


Um querido ex-professor, em suas aulas, sempre procurava nos advertir que tudo nesta vida tem segundas intenções, mesmo um gentil “bom-dia”; o que não significa, necessariamente, que elas precisem ser más.



Pensando nisso, lembrei-me de uma passagem da obra “Ortodoxia”, de G. K. Chesterton, onde o autor nos conta uma historieta muito sugestiva, conhecida popularmente como “a parábola do poste”.



Conta-nos ele que, em uma cidadezinha qualquer, havia um poste de luz que seria removido pelas autoridades públicas e, para tanto, foi feita uma grande campanha para “esclarecer” a população sobre a importância da remoção deste trambolho barroco que atrapalhava a via pública e que, de acordo com os mesmos, era muito antiquado, desalinhado e, por isso, não ornava com os novos tempos.



Papo vai, papo vem, e a galera galerosa estava toda muito animada com a remoção do dito-cujo e, em meio a toda essa empolgação, eis que apareceu um frade franciscano, com seu surrado hábito cinza.



Ele se inscreveu para parlar. As autoridades, respeitosamente, lhe concederam a palavra. Então, ele foi até o púlpito e lembrou a todos que, antes de retirarmos o poste e destruí-lo, seria de fundamental importância que procurássemos refletir a respeito da luz. O que é a luz?



Ao ouvirem isso, as autoridades, os cidadãos presentes — e alienígenas que não foram convidados — começaram a vaiar o frade, enxotando-o dali, pois eles não tinham tempo para refletir sobre o que seria a luz, ou o que quer que fosse; e, após a sua retirada, o poste foi colocado abaixo, o que levou a galera ao delírio.



Passado algum tempo, as pessoas começaram a perceber que os maiores defensores da retirada do poste estavam interessados em ganhar algum com a venda do bronze que havia nele. Outros queriam que as ruas não mais fossem iluminadas para poderem, ao ar livre, praticar atos libidinosos e cometer crimes e delitos com maior tranquilidade.



Enfim, todos se tocaram de que realmente era necessário que tivessem parado para refletir a respeito da natureza da luz; e agora eles o farão, porém, irão fazer isso no escuro por ignorarem as tais das segundas intenções.



Bem, por isso, perguntamos: o que é a educação? O que ela é? Durante todo o correr do século XX, foram feitos incontáveis experimentos com base em teorias “inovadoras”, com o intento de melhorá-la e, em grande medida, quanto mais inovações foram sendo introduzidas (lá ele...), estranhos resultados foram sendo obtidos em médio e longo prazo.



Experimentos esses que continuam sendo empreendidos no século XXI, onde se chegou a realizar a façanha de a atual geração — os zoomers — ter um QI médio inferior ao da geração anterior; o chamado efeito Flynn reverso. Tudo isso, em grande medida, graças às teorias inovadoras que justificam e embasam as inúmeras decisões que foram e são tomadas por burocratas tão presunçosos quanto bem-intencionados — sempre bem-intencionados.



Boas intenções que nos levam a recordar o livro “As fronteiras da técnica”, de Gustavo Corção, onde o autor nos diz que a bomba nuclear não o assustava — nem um pouco. O que enchia o seu coração de medo era a caneta de um burocrata.



Pois é. Quantas e quantas insanidades foram perpetradas por uma caneta azul nas mãos de um burocrata bem-intencionado? Infelizmente, não foram poucas; e o estado em que se encontra a educação — e a deterioração da autoridade docente — apenas confirma esse medo, não é mesmo?

*
 
(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre outros livros.

 
 

 

 

 
 
     
 

 
 
     
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