Por Janério Jacinto (Professor Janério),
Era início do ano de 2020, mais precisamente início de fevereiro. Algo já não estava muito bem antes. Lembro que viajamos de férias para Natal, no Rio Grande do Norte. Eu sentia algo estranho apertar no meu peito, mas não falei nada para a minha família. Fizemos vários passeios e aproveitamos cada momento. Aliás, diga-se de passagem, repetimos praticamente vários passeios das outras vezes em que já havíamos ido para Natal.
Então chegou a hora de voltar para casa. Eu continuava muito em dúvida, não sabia o que fazer e estava com uma indecisão absurda. Mas era preciso decidir: ou seguir adiante, ou parar por ali. Como todo bom geminiano, com medo de se arrepender, pensei, pensei e resolvi dar tempo ao tempo.
Voltamos para casa, sim, para São Miguel do Iguaçu. Resolvi retornar para a cidade onde trabalhava, Lajeado/RS, uma semana antes de iniciar as aulas. Lá, no apartamento, comecei a organizar os preparativos para o início do ano letivo, tais como planejamento, planos de aula, supostos projetos de ensino etc.
Mas, em todos os momentos em que eu me sentava diante do computador, algo muito estranho acontecia. Eu sentia algo muito forte, parecia coisa de outro mundo, algo inexplicável, difícil explicar em frases ou palavras. Como sou muito persistente, não quis nem dar asas à imaginação. Continuei fazendo o que havia decidido fazer, mas tudo foi ficando truncado.
O que vinha à mente era: preciso me divorciar dela.
Foi minha companheira por muitos e muitos anos, mas, como tudo tem início, meio e fim, a hora chegou. Relutei, relutei, mas era só isso que vinha à mente. Então comecei a conversar com ela e relatei o seguinte:
“Eu sei que você me acompanha há muitos anos. Nós nos conhecemos e passamos a ser parceiros um do outro. O tempo todo você estava ali comigo; bastava que eu te observasse, interpretasse e entendesse. Mas confesso que nem sempre era fácil. Mesmo assim, eu me apaixonei profundamente por você, a ponto de não querer me aproximar das outras. Mesmo que, o tempo todo, elas estivessem me seduzindo, eu precisava ser forte e viver só para ti. Mas confesso: fiz o maior esforço, porém não consegui. A sedução foi de tal forma que comecei a flertar com elas — sim, com elas —, pois, uma a uma, foram entrando na minha vida de maneira que perdi totalmente o controle. Então resolvi deixar-te, e o divórcio foi inevitável.”
Mas não me joguei nos braços das outras logo em seguida; preferi ficar um tempo só. Aí veio a pandemia, e tudo contribuiu — não sei se para melhor ou pior —, mas, sem poder sair de casa, passei a ter contato com elas apenas online, pelas redes sociais.
Mas houve uma que foi muito, muito sedutora e acabou me convencendo. Fiquei totalmente apaixonado e, sem mais domínio de mim, acabei me envolvendo. Sem outra alternativa, tive que ir embora com ela. Ela me proporcionou tudo o que eu mais queria: morar na praia e estar com ela.
E assim se passaram três anos de muito amor entre nós, com uma compreensão incrível. Eu estava todo entusiasmado e feliz. Mas confesso: de vez em quando eu lembrava de você e, como diz a música, “uma saudade bate forte, dói no fundo, vontade louca de te amar mais uma vez”.
Na verdade, eu nunca deixei de te amar. Sempre fui apaixonado por ti. Houve momentos em que eu ficava contigo de manhã, à tarde e à noite. Nunca me cansei de ti. Você vivia em meus pensamentos o tempo todo.
Mas confesso: mesmo com as outras, e principalmente com a que estou agora, sempre tiro um tempinho para te ver, acompanhar teus passos e tua evolução. Nessas espiadas, quando adentro na tua vida, percebo que você não para de crescer e evoluir. Sinceramente, às vezes quase não consigo te acompanhar, pois você é muito dinâmica e versátil, sempre ligada na voltagem 220, acelerada e, como diz uma certa música, “você me deixa doidão”.
Mas, como diz o ditado popular, nem sempre se deve trocar o amor antigo pelo novo. E, realmente, estou agora aqui pensando: foi bom enquanto durou. O amor novo foi legal, foi bom, mas eu continuei preso a ti. Costumo dizer: eu saí do teu mundo, mas você não saiu de mim.
Por isso quero dizer-te: estou voltando para os teus braços.
Não quero que leve a mal eu falar da outra. Desculpa-me. Não tenho nada de negativo a dizer dela. Fui feliz, pois todos os dias ela me proporcionava uma felicidade plena. Eu saía de casa e voltava radiante.
Mas, diante das forças das circunstâncias, chegou a hora da partida.
E, como você é meu amor antigo, meu primeiro amor, e está proporcionando o retorno — porque você é muito, mas muito humana —, volto para os teus braços, minha querida e amada Geografia.
Mas quero te fazer um pedido: deixe-me continuar a amizade com minhas ex — são elas: a senhora Pedagogia, a senhora História, a senhora Sociologia, a senhora Filosofia e a mais recente, a senhora Educação Especial. Elas, nesses últimos três anos aqui na praia em Guaratuba, simplesmente me levaram à loucura. Danadinhas, sedutoras, envolventes, apaixonantes, tão maravilhosas que, inclusive, me deram a condição e a liberdade para voltar ao meu amor antigo.
E vamos lá: trocar de “amor” ou, melhor dizendo, voltar aos braços da antiga amada.
Deixo a minha amante e sedutora Pedagogia para seguir contigo em outra região, em outro estado e em outro município. Não chores por mim, querida Pedagogia. Levarei para sempre todos os teus ensinamentos. Mas confesso: chorarei por ti, pois foi uma relação de amor muito forte. Tu me proporcionaste, desde o saudoso CNEC, uma felicidade ímpar por uma década e, agora, aqui na praia em Guaratuba, por mais três anos.
Ao todo, foram 13 anos de convivência na prática, sem contar quando te conheci ao folhear os primeiros livros e apostilas em Presidente Prudente/SP. Lá você me prendeu de tal forma que fez a minha cabeça. Sim, totalmente dominado por ti, segui as tuas exigências.
Para conhecer-te melhor, precisei saber mais sobre você. Então estudei duas subáreas que são partes de ti: a maravilhosa Orientação Educacional e a linda, brilhante e fascinante Supervisão Educacional.
Seguirás comigo para sempre, até porque a amada Geografia não é ciumenta. Ela entende que tudo é parceria: uma complementa a outra, e a interdisciplinaridade acontece, dando suporte, entusiasmo e abrilhantando a vida de todos que precisam de ti.
E aqui acontece a separação, sem litígio, tudo em comum acordo, em paz.
Estamos em 2026. Este relacionamento durou três anos; foi muito rápido. Até já havia saído do estágio probatório.
E assim segue o caminhante, pois, como sabiamente eternizado pelo poeta espanhol Antônio Machado:
“Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.”
Prof. Janério