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Caso Orelha: Santa Catarina é laboratório do fascismo brasileiro – por pastor Zé Barbosa Jr
  Data/Hora: 30.jan.2026 - 5h 53 - Categoria: Brasil  
 
 
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Fonte: Revista Fórum: Por Zé Barbosa Jr,

 

Há algo de profundamente inquietante acontecendo em Santa Catarina, e ignorar isso pode custar caro à democracia brasileira. O estado vem se consolidando como um balão de ensaio para o fascismo no Brasil, ocupando o espaço deixado pelo fracasso do chamado “plano Curitiba”, que tentou capturar o país por meio do Judiciário e ruiu sob o peso da própria incompetência, vaidade e autoritarismo de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e a trupe da Lava Jato.

 

Com Curitiba desmoralizada como polo moral e político, o eixo do experimento autoritário se desloca ainda mais para o Sul, agora com Santa Catarina no centro, tendo Balneário Camboriú como vitrine estética, simbólica e ideológica de um Brasil excludente, violento com os pobres, hostil à diversidade e indulgente com o extremismo. Nada disso é fruto do acaso. Os sinais estão por toda parte. E falo isso com uma certa dor: conheço muita gente boa, democrática, ética e querida por lá.

 

O chamado caso do “cachorro Orelha”, que ganhou repercussão nacional, não é apenas um episódio isolado de violência ou crueldade, e nem estou dizendo que isso só acontece naquele estado. Mas ele se insere num contexto mais amplo de banalização da brutalidade, de celebração pública do ódio e de indiferença institucional diante da violência quando ela não atinge os “cidadãos de bem” que o discurso oficial insiste em proteger e que, infelizmente, grassa por lá.

 

Ao mesmo tempo, células neonazistas seguem sendo descobertas em Santa Catarina, frequentemente tratadas com constrangimento pelas autoridades e relativizadas por setores da sociedade que preferem enxergar esses grupos como “casos pontuais”, e não como o que de fato são: sintomas de um ambiente político permissivo, onde o extremismo encontra espaço para se organizar, recrutar e agir. Esse ambiente não se constrói sozinho. Ele é cultivado.

 

O governo estadual, sob o comando de Jorginho Mello (PL), tem dado sucessivos sinais de alinhamento com uma agenda autoritária. O governador não apenas sancionou uma lei que proíbe cotas raciais e outras ações afirmativas, como também celebrou publicamente a medida, ecoando um discurso que nega o racismo estrutural e trata políticas de inclusão como privilégios indevidos. Trata-se de uma escolha política clara: governar reforçando desigualdades históricas, sob o verniz de uma falsa neutralidade meritocrática.

 

A mesma lógica aparece nas principais cidades do estado, na expulsão de moradores em situação de rua vindos de outras cidades, uma política que mais se assemelha à “higienização social” do que a qualquer estratégia séria de assistência social. Em vez de políticas públicas, oferece-se repressão; em vez de cuidado, expulsão. O pobre vira problema a ser removido, não cidadão a ser protegido.

 

Como se não bastasse, o próprio governador já flertou abertamente com o discurso separatista, ao sugerir que o país poderia ser dividido “se lá pra cima não funcionar”. A fala, ainda que travestida de bravata, é gravíssima. Ela rompe com o pacto federativo, alimenta ressentimentos regionais e reforça a ideia de que parte do Brasil seria “atrasada”, “inviável” ou “indesejável”. É o tipo de discurso que o fascismo adora: simples, identitário, excludente e perigosamente sedutor.

 

Enquanto isso, Santa Catarina dispara em rankings de corrupção, com quase 30 prefeitos presos nos últimos três anos, desmontando o mito de um estado moralmente superior, eficiente e imune às mazelas nacionais. A retórica da “ilha de excelência” cai por terra quando confrontada com os fatos — mas o discurso permanece, agora instrumentalizado para justificar autoritarismo.

 

O governador parece empenhado em transformar seu estado num porto seguro para o bolsonarismo, oferecendo cargos, abrigo político e projeção institucional. Primeiro, um cargo para a filha de Michelle Bolsonaro. Depois, o acolhimento do “04” para uma carreira política local. Agora, a tentativa de importar um candidato ao Senado, como se o estado fosse uma extensão patrimonial do clã Bolsonaro.

 

Não se trata apenas de alianças políticas — trata-se da institucionalização de um projeto autoritário, que testa limites, normaliza absurdos e avança onde encontra menos resistência e Balneário Camboriú surge, nesse cenário, como a maquete perfeita do Brasil fascista: luxo ostentatório cercado de miséria invisibilizada; verticalização extrema como metáfora de desigualdade; intolerância travestida de ordem; exclusão vendida como progresso. Um cartão-postal que esconde, nas sombras de seus arranha-céus, a violência social e política que sustenta esse modelo.

 

O que se experimenta em Santa Catarina hoje pode ser replicado amanhã em escala nacional. Foi assim com a Lava Jato. Foi assim com o bolsonarismo. Primeiro, testa-se no território. Depois, vende-se como solução para o país. Por isso, o alerta é urgente: não estamos falando de exagero retórico nem de paranoia ideológica. Estamos falando de padrões, de decisões políticas concretas, de discursos públicos e de ações de governo que apontam na mesma direção: menos direitos, menos diversidade, menos democracia, e mais autoritarismo.

 

Se não acordarmos logo, se continuarmos tratando esses sinais como “polêmicas isoladas” ou “excessos retóricos”, pode ser tarde demais. O fascismo não chega de uma vez. Ele se infiltra, se normaliza, se apresenta como eficiência, ordem e moralidade. E quando percebemos, já não há mais espaço para discordar.

 

** Este artigo não representa, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

 
 

 

 

 
 
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