Por André Luiz Thiago, publicado no grupo CELEOPA pela Professora Cleusa,
A gente cresce acreditando que está construindo alguma coisa sólida. Carreira, patrimônio, imagem, corpo, reputação. Parece tudo muito importante enquanto você está dentro do jogo. Parece urgente. Parece que define quem você é. E é aí que mora a ilusão mais bem vendida da história da humanidade: a ideia de que isso tudo vai significar alguma coisa no final.
Não vai.
No fim das contas, você não é o cargo que ocupou, nem o dinheiro que acumulou, nem a estética que exibiu. Você é um organismo temporário. Um intervalo. Um empréstimo biológico com data de devolução já assinada — você só não sabe quando vence.
E o mais irônico? Enquanto você briga por status, seu corpo está silenciosamente negociando com o tempo a sua própria falência.
Células morrendo. Outras tentando substituir. Falhas acumulando. Um sistema inteiro trabalhando, todos os dias, para adiar o inevitável.
Até que não dá mais.
E quando esse momento chega — sem cerimônia, sem respeito pelo seu ego, sem considerar seus planos — o coração para. Simples assim. A máquina que você tratou como identidade desliga. Não tem discurso, não tem negociação, não tem “só mais um pouco”.
Acabou.
E aí começa o processo que ninguém gosta de encarar porque desmonta completamente o teatro que a gente construiu.
A natureza entra em cena.
Sem pressa. Sem emoção. Sem apego.
O corpo, que antes era vaidade, vira matéria-prima. Aquilo que você protegia, exibia, julgava superior… vira recurso. Nutriente. Energia reciclável. O planeta, que te sustentou em silêncio a vida inteira, simplesmente cobra de volta o que nunca foi seu de verdade.
E aqui vem o soco que incomoda:
Você nunca foi dono de nada.
Nem do seu corpo.
Nem do seu tempo.
Nem da sua história.
Você foi um usuário temporário de um sistema perfeito que não depende de você para continuar funcionando.
E enquanto isso, você gastou dias — que eram limitados — se estressando com coisas ridiculamente pequenas. Discutindo por ego. Se comparando. Tentando provar valor para pessoas que também vão desaparecer.
É quase cômico, se não fosse trágico.
Porque quando você entende, de verdade — não intelectualmente, mas visceralmente — que vai virar adubo, que seu fim físico alimenta o começo de outra vida, que você é só uma transição de matéria… tudo muda.
Ou deveria mudar.
Problema pequeno vira pó. Opinião alheia perde força. Vaidade começa a parecer infantil.
E o tempo… o tempo ganha peso.
Não aquele peso ansioso de “preciso correr”, mas o peso consciente de “isso aqui é limitado, então eu vou usar direito”.
A questão não é que a vida perde sentido por acabar.
É o contrário.
Ela só ganha sentido porque acaba.
Se fosse eterna, seria banal.
O fato de ser finita é o que torna cada escolha relevante, cada momento raro, cada conexão valiosa.
Então aqui vai, sem filtro:
Você pode continuar vivendo como se fosse permanente — acumulando, competindo, se iludindo — ou pode encarar a realidade de frente e ajustar a rota.
Porque o final já está garantido.
A única coisa que ainda está em aberto é o tipo de vida que você vai ter antes de virar parte do chão.
E isso, diferente de todo o resto, ainda está nas suas mãos.
Ass : André Luiz Thiago também conhecido por André Negrão.