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É NO FOGO BRANDO QUE SE PREPARAM OS GRANDES MANJARES
  Data/Hora: 29.mai.2026 - 5h 39 - Colunista: Cultura  
 
 
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por Dartagnan da Silva Zanela (*)

 


Com o objetivo de resolver pequenos problemas é que surgem grandes inventos. Um destes, sem dúvida alguma, é a panela de pressão. Quem gosta das lides junto ao fogão sabe o quanto essa abençoadinha facilita a nossa vida. Há muito comprei uma para, é claro, ver se eu cozinho mais depressa.



Sim, para cozinhar certas coisas e resolver determinados problemas, a urgência acaba sendo necessária; já outros, por sua natureza peculiar, demandam tempo e paciência — tempo que muitas vezes nos falta e paciência de que frequentemente não dispomos.



E se há algo que todos nós deveríamos apreciar e ponderar com muita paciência são os “debates” que, de tempos em tempos, acabam tomando o centro das atenções. Estes, do seu jeitão todo especial, instigam-nos a nos indignarmos do nada e, com sangue nos olhos, a bradarmos aos quatro ventos a nossa opinião, tomando partido por essa ou por aquela bandeira, ideia, proposta ou por qualquer esparrela deste gênero.



Tal fenômeno torna-se mais curioso quando esses debates são encenados em programas televisivos insuspeitos ou em podcasts bem-intencionados, onde aquilo que, em tese, deveria ser uma troca de pontos de vista para promover um maior esclarecimento acaba se convertendo em um tremendo bate-boca.



No frigir dos ovos, esse tipo de quizumba apenas promove a manifestação de “torcidas não tão organizadas”, que se engajam de forma visceral na defesa de um ou outro lado sem ao menos saber, com relativa clareza, o que realmente está em jogo.



Ora, ora: e quem nunca participou em sua vida de uma patacoada dessas, que atire o primeiro ovo podre. Todos, em algum momento da vida, nos entregamos a esse tipo de veleidade após ouvirmos o rufar dos tambores midiáticos, e isso não é sinal de que somos tontos, estultos ou algo que o valha. Nada disso. É sinal de que somos humanos e, enquanto tais, sujeitos ao equívoco. Porém, vale lembrar que a insistência no erro é sinal de outra coisa.



Bem, mas se esse tipo de impostura é frequente e, ao mesmo tempo, demasiadamente humano, seria de bom alvitre — hum, que chique — que procurássemos especular qual seria a raiz dessa nossa reação belicosa.



A resposta a essa indagação poderá nos levar por inúmeros caminhos conjecturais e vielas teóricas. Cada um desses vieses, por sua deixa, irá nos apresentar uma explicação que, em alguma medida, irá projetar um facho de luz — e uma porção de sombras — sobre o nosso entendimento; e, em meio a esse contraste, poderemos abrir caminho para alguma clareira de lucidez.



Independentemente dos caminhos teóricos que se apresentem em nossa reflexão sobre as tretas e pelejas que tomam o lugar dos debates e tertúlias, há um ponto que perpassa a todos: a perda da capacidade e da disposição de ouvir o nosso semelhante. E se fazemos ouvidos moucos para a voz do outro, o diálogo torna-se uma impossibilidade, como bem nos ensina Martin Buber.



Nossa! Quantas e quantas vezes nós interrompemos o nosso interlocutor de forma malcriada — feito criança mimada — porque já pressupomos saber, tintim por tintim, o que ele pretende dizer? Não são poucas. Quantas e quantas vezes nós pedimos para que nosso antagonista esclareça aquilo que ele está defendendo? Poucas, para não dizer nenhuma.



Enfim, infelizmente esquecemos que certas verdades, como os grandes manjares, não se preparam na pressão da vaidade e na pressa da arrogância, mas apenas no fogo brando da escuta honesta, temperada com uma reflexão paciente.

*

(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros.

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