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Crônica do BEN desta semana: Oitenta anos
  Data/Hora: 14.out.2026 - 7h 25 - Categoria: Cultura  
 
 
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Por Renato Benvindo Frata

Quando lembro que os tenho, não sei se choro ou rio.

Às vezes faço os dois. Um risinho, um chorico. Meio acanhado, meio assanhado, a misturar baba de alegria com lágrima de tristeza.

Mas faço apenas quando me sinto só, segurando a mão da solidão como proteção. Seria ela a corda de segurança da velhice?

Difícil dizer. Estou a experimentá-la só agora... Oitenta.

Marca indelével do que vivi. É aí que o pensamento encolhe as asas como pássaro friorento. Para se assentar por inteiro em mim. Aninhando-se como aves sob a chuva fria: sendo mais e menos, eu.

Mais pelo riso em lábios esticados; menos, com os olhos vermelhos a verter medo.

Momento em que os músculos se contraem para, em contraposição, distender a emoção e repetir em voz rouca e curta: oitenta, oitenta, oitenta, como anúncio em cornetas de circo.

Pois, sabe o que acontece? Eles ficam sem a preocupação do fazer.

E, no sentido de lazer, viram-se instintivamente aos céus.

As palmas, espontâneas, se unem sem fechar as mãos. Compõem uma torre. Como ponta de seta virada para cima.

Hora em que os olhos a acompanham e, também, se elevam. Como se procurassem algo nas nuvens, no topo do céu, perto do infinito.

E fico nessa ansiedade, tentando invadir fendas esgarçadas para que mais longe possa enxergar. Lá deve estar Deus.

Quem tem oitenta anos, eu acho, tende a ficar assim nessa espera.

Mas pode, se quiser, ir a qualquer lugar. E é o que faço ainda com passos largos. Ou nem tanto. Pois já os sinto meio encolhidos pelo encarangar das pernas.

Pressinto que, às vezes, não. Mas, sim. O sim da realidade é mais forte e me põe a andar com o semblante sóbrio, enfeitado apenas por uma nesga de sorriso.

Dizem que faz bem sorrir. É mais simpático a olhos outros. Mesmo que esses nem me conheçam. Mas verão que meu sorriso tem razão de ali estar. E de ficar.

Quem fez oitenta pode se dar esse luxo. Se quiser.

Sabe por quê? Aos oitenta, os pés se fincam em um torrão que produz flores.

Assim, faço as pazes com os oitenta na espera dos noventa. Eles me encontrarão com os pés fincados num jardim.
 
 

 

 

 
 
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