Por Dartagnan Zanela <dartagnanzanela@gmail.com>
José Ortega y Gasset dizia que os gênios, por um traço que lhes é
todo particular, acabavam criando o seu próprio ofício e, de certa forma, a sua
própria identidade. Esse era o caso do próprio filósofo espanhol e, em grande
medida, é o caminho pelo qual inúmeros homens comuns, com suas vidas comuns,
vivem os seus dias extraordinários.
Em minha porca vida, graças a Deus, conheci uma baciada de pessoas
assim que, com seu jeitão, acabaram me ensinando muita coisa e, por isso, lhes
sou muito grato. Outras tantas, além de terem me enriquecido com seus
conhecimentos, acabaram se tornando fonte de inspiração e, por isso mesmo,
tenho uma dívida com elas. Uma dessas pessoas, sem dúvida alguma, foi o meu
querido amigo Acir das Neves, o tio Polaco — que, aliás, não tinha nenhuma
ascendência polonesa.
Conheci-o no ano 2000, quando minha esposa me apresentou a ele; e,
daquele dia em diante, muitas foram as conversas, incontáveis foram os causos e
memoráveis foram as lições. Lições, causos e conversas sobre os quais poderia
discorrer um a um e, ao fazê-lo, a crônica ficaria aguda e se tornaria um
livro.
Mas em todas as nossas tertúlias havia um traço comum: nunca o vi
falando mal de uma pessoa, mesmo que esse fosse um traste de marca maior. Na
verdade, mesmo quando o escroque era o centro do conto, ele sempre procurava
chamar a atenção para alguma qualidade que aquele indivíduo possuía e que
deveria nos inspirar respeito — nem que fosse uma qualidade maquiavélica.
Dizia ele que não havia necessidade de macular a figura de uma
pessoa que está caminhando por uma vereda torta e que, ao fazer isso,
estaríamos nos atirando na mesma lama. Por isso, ele preferia ver o que havia
de aproveitável e respeitável em todos, inclusive nos biltres, até mesmo
naqueles que tinha como adversários, porque é esse tipo de atitude que nos
liberta de nos tornarmos similares ou piores do que eles.
Além disso, ele era um sarrista de primeira. Fazia brincadeira com
tudo e com todos, e sua risada — vou te dizer — inundava todo ambiente onde ele
estava e contagiava quem nele estivesse.
Em nosso último encontro, ele veio nos visitar acompanhado do seu
filho e de um amigo. Ofereci o de sempre, na mesma sequência: café, cerveja,
vinho ou vodka? E ele, laconicamente: só um cafezinho e boa companhia.
Papo vai, papo vem, fomos até a biblioteca e, na lata, ele
perguntou: "Dartagnan, você tem algum livro daquele professor que mora na
Virgínia, o Olavo de Carvalho?" Respondi que sim e fui mostrando os
ditos-cujos, especialmente os autografados. Ao pegá-los, disse: "É. Gosto
desse professor. O velho é phoda." Após dizer isso, olhou para as estantes
e, numa delas, viu as obras de Karl Marx. Sem pestanejar, sentenciou: "Mas
você não me engana não, seu barbudo safado!" — e, apontando para os
livros, completou: "Você é comunista!" E rimos juntos.
Hoje ele não está mais entre nós; meu amigo Polaco partiu deste
mundão de meu Deus no dia 21 de setembro de 2026, às três horas da tarde - na
hora da misericórdia - para a Querência Celeste, deixando-nos saudades. Sempre
ficava feliz quando ele me encontrava e dizia que acompanhava minhas
escrevinhadas pela internet. Agora, espero que tenha wi-fi no reino dos céus,
como também espero um dia me encontrar com ele, ciente de que, ao me ver, ele
dirá: "Você por aqui, Darta? Meu Deus do céu, o Paraíso já não é mais o
mesmo. Agora qualquer um pode entrar." E em resposta, direi: "Faz
tempo, meu amigo... Faz tempo que já não é mais o mesmo." E juntos iremos
rir alto, bem alto, para o constrangimento das hierarquias celestes.
Enfim, descanse em paz, meu bom amigo.
*
Escrevinhado por Dartagnan da Silva Zanela - professor,
escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO LEVIATÔ, entre
outros livros.