Bruno Peron
Em
setembro de 2014, o Banco Mundial fez uma advertência preocupante sobre a crise
de empregos que aflige o mundo: 600 milhões de postos de trabalho devem ser
criados até 2030 para acompanhar o ritmo de crescimento populacional no
planeta. Não obstante, o debate sobre empregos não deve prescindir de reflexões
sobre qualidade das ocupações, estabilidade das carreiras e qualificação
profissional.
É
desconsolador que medidas do governo brasileiro focalizem o crescimento da
economia, sem o qual afirma que não seria possível aumentar a oferta de
empregos. Ouvimos esse papo há muito tempo. Não desmereço completamente os
confeiteiros do Ministério da Fazenda, onde o bolo fermenta há muitas décadas
sem benefícios às camadas mais humildes, mas um país bem estruturado gera
empregos de qualidade satisfatória sem necessariamente ter que crescer. Não é
preciso ostentar pertencimento a blocos fictícios e ridículos como BRICS (uma
modinha jornalística e acadêmica que inclui Brasil, Rússia, Índia, China e
África do Sul), em que medidores econômicos aproximam países que têm pouco a
ver culturalmente entre si.
A
prioridade no Brasil é pensar no modelo de desenvolvimento necessário nas
décadas seguintes para reposicioná-lo no mundo. Só assim duas chagas atuais
poderão ser combatidas: desindustrialização e inflação. Escrevo brevemente
sobre cada uma delas para demonstrar sua relação com as políticas de emprego no
Brasil.
A
desindustrialização é um efeito da falta de investimentos tecnológicos em
empresas nacionais. Fiscais corruptos e execráveis do governo preferem garantir
os rendimentos de poucas indústrias estrangeiras que comercializam em solo
brasileiro a promover o progresso de empreendedores incipientes e pequenos.
Estes, numa perspectiva otimista, recebem apenas boas lições do SEBRAE (Serviço
de Apoio às Micros e Pequenas Empresas). Ainda, estudantes recém-formados de
universidades compram a ideia do prestígio de trabalhar para uma
“multinacional” e candidatam-se como “trainees”. Mal sabem que se transformarão
em agentes bem-sucedidos da expansão dos interesses estrangeiros no explorado e
lânguido Brasil.
O
processo desindustrializador exerce influência sobre a inflação. Na medida em
que empresas pequenas se debilitam frente às equivalentes grandes, os
supermercados ficam com pouca variedade e, portanto, a competição entre as
marcas é menor. Os preços sobem e os consumidores ficam sem alternativas. Tudo
que os tributos sobre importados fazem é acomodar as indústrias nacionais e
encarecer o consumo. Há falta de incentivo ao consumo e ao empreendedorismo no
Brasil, enquanto avançam direitos trabalhistas como os de redução de carga
horária e benefícios.
De
fato, esses avanços são importantes para melhorar a qualidade de vida dos
trabalhadores. No entanto, o Brasil acaba desestimulando investimentos e
prejudicando aquela armação frágil que o mantém de pé num mundo que não para de
inovar. Por esse motivo, empresários das regiões meridionais do Brasil buscam
mão-de-obra imigrante para dar fôlego a suas indústrias e reduzir as
probabilidades de perder tempo com processos trabalhistas. É assim que centenas
de haitianos que entram pelo Acre acabam bem recebidos no Rio Grande do Sul e
em São Paulo.
Dessa
forma, aponto dois devaneios de trabalhadores: um é o de ser instrumento de
empresas grandes para exploração consumista de brasileiros; outro é a
sofreguidão concurseira que integra muitos ao profissionalismo burocrático do
Maquinário. Há os que sonham mais alto, com sua incorporação ao clã de
funcionários da Cidade Artificial no meio do cerrado, que vivem bem e separados
da decomposição do Brasil.
Discorrer
sobre empregos envolve discutir todas essas questões sem receio de descobrir
que o Brasil perde competitividade e recrudesce seus desafios. O principal
destes é o de instruir sua população ao trabalho que dignifique a família, a
cidade e o país. Não é o emprego que serve a nós. Nós é que devemos servir ao
trabalho.
Hoje,
nós temos títeres que se alternam no poder com promessas de crescimento
econômico. Mas não é esse o tema prioritário que chamará cidadãos ao dever.
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