por Dartagnan da Silva Zanela (*)
Ao constatar isso, porca miséria, fiquei pensando em minha inenarrável miséria
cultural e no quão apartada minha alma encontrava-se do terapêutico efeito
catártico que o teatro pode proporcionar ao coração humano, instalando-nos na
realidade e ordenando as nossas paixões e inquietações.
Mas então, lembrei-me da grande paixão que, desde menino, nutro pela sétima
arte e toquei-me da quantidade descomunal de filmes que tive a grata felicidade
de assistir e rever no correr dos dias de minha peregrinação por este vale de
lágrimas, bem como dos inúmeros momentos catárticos que algumas destas
películas propiciaram a este bicho do mato.
Uma destas obras que marcaram de forma indelével o meu ser com toda a certeza
foi The Day After — O Dia Seguinte (1983), telefilme dirigido por Nicholas
Meyer que retratava como poderia ser o mundo após uma guerra nuclear.
Quando assisti a esse filme pela primeira vez, no finalzinho dos anos 80, num
sábado à noite no Supercine, eu era apenas uma criança — que às vezes queria
ser astronauta e, outras vezes, tal qual Jacques-Yves Cousteau. Como criança
daqueles idos, estava muito impressionado com todo aquele clima de Guerra Fria,
com todas as reportagens que falavam o tempo todo a respeito dos efeitos da
radiação, juntamente com notícias sobre o acidente nuclear de Chernobyl (1986)
e o acidente com Césio-137 em Goiânia (1987). Enfim, podemos dizer que eu tinha
um medo danado do que o futuro resguardava para mim.
Quando o filme terminou, lembro-me de que fiquei no sofá, encolhido, sentindo
um leve frio na barriga, ao mesmo tempo que segurava a vontade de chorar. É,
meu amigo! O filme bateu doído em mim com suas cenas tingidas em todos os tons
possíveis de desesperança.
De todas as cenas, de todos os momentos do drama, houve dois que calaram fundo
em meu coração. Dois momentos distintos vividos por uma mesma família.
O primeiro foi ver a família em questão reunindo tudo o que podia para se
abrigar no porão de casa. Ao ver aquilo, em minha imaginação infantil, pensei:
"Meu Deus do céu! Nossa casa não tem porão. Como nós iremos nos proteger
quando isso vier a acontecer? Nós iremos morrer? Será que conseguimos arrancar
o assoalho da casa e cavar um buraco bem grande? Será que isso
resolveria?" Resumindo, fiquei encafifado.
A segunda cena, viva até hoje em minha memória, foi quando o pai, após alguns
dias saiu para ver como as coisas estavam e viu que o cão, fiel companheiro do
filho mais novo, que estava na sala, agonizando, esperando a morte chegar. Bah!
Aí meu coração se esfacelou, porque na hora lembrei-me do meu amigo canino, o
Monique; e, mais uma vez, pensei: "Então quer dizer que meu cachorro irá
morrer à míngua? De jeito maneira! Não vou deixar. Ele ficará com a gente, não
tem lesco-lesco."
Enfim, ao final do filme, a noite foi longa. Rolei um monte na cama matutando,
com meu jeito menino, sobre tudo o que havia visto. Não digo que esse tenha sido
o meu primeiro momento catártico diante de um filme, nem o mais intenso, mas,
com certeza, foi um daqueles que, de alguma maneira, marcaram para sempre a
minha forma de encarar a vida — pois me ensinou, definitivamente, que os dias
amargos e as noites mais escuras sempre poderão ser subjugados por um pequeno
gesto de amor e pela modesta chama de uma vela de esperança e boa vontade.
*
(*) professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “NAS ENTRANHAS DO
LEVIATÔ, entre outros livros.









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