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Por Oliver Harden (publicado por José Garcia presidente do Centro de Letras do Oeste do Paraná - Celeopa), via redes sociais,
Imagino Machado de Assis, lá no além, debruçado sobre uma escrivaninha etérea, tentando escrever uma crônica para o jornal celestial O Ocidente Celeste, e parando, de súbito, com o rosto crispado, ao receber, por algum misterioso correio interdimensional, as notícias das últimas nomeações da Academia Brasileira de Letras. Coitado do Machado, que a fundou com o zelo de um relojoeiro suíço, acreditando, talvez ingenuamente, que a “Casa de Machado” seria o santuário da inteligência, o farol contra as trevas do palavrório fácil, o templo onde o verbo seria cultuado como um oráculo.
Deve estar agora, o velho bruxo do Cosme Velho, a franzir o cenho por detrás dos óculos, cogitando se não teria, em vida, aberto a porta errada. Terá ele fundado, sem querer, não uma Academia de Letras, mas uma espécie de resort para vaidades literárias, onde a pena pesa menos que o prestígio social e o livro vale menos que o aperto de mão certo?
Naquele tempo, imaginava-se que ocupar uma cadeira era honraria rara, destinada aos que, com suor e tinta, haviam cravado o próprio nome na pedra da língua. Hoje, parece que basta ter acumulado aparições em colunas sociais ou figurar em eventos culturais que misturam literatura com buffet de canapés requintados. O mérito? Ah, esse agora é um detalhe ornamental, tão supérfluo quanto o floreio dourado de uma capa de livro que ninguém abrirá.
Penso que Machado, se pudesse, mandaria uma carta à ABL, começando com a ironia que lhe era própria: “Meus caros, perdoem-me por ter nascido no século errado. Se soubesse que a cadeira seria mais um assento de desfile do que um altar da língua, teria escolhido fundar uma confraria de xadrezistas ou um clube de leitura para gatos, o que, ao menos, teria exigido mais discernimento.”
No além, ele deve já ter proposto aos colegas mortos uma assembleia espiritual para rever os estatutos. Talvez decidam criar um novo requisito: antes de ser eleito, o candidato deverá demonstrar saber ler e escrever sem auxílio de assessores, além de responder, sem gaguejar, quem foi Machado de Assis — e não vale dizer “foi o autor de Dom Casmurro, aquele que traiu Capitu”.
Coitado do Machado, que talvez esteja agora, desencarnado e cabisbaixo, a aceitar que a Casa de Letras se converteu em Casa de Etiquetas, onde a gramática é menos respeitada que o protocolo social e onde, na dúvida, se escreve o nome do novo imortal com letras douradas, não pelo peso de sua obra, mas pelo peso de sua notoriedade efêmera.
E, como diria o próprio Machado, se o riso é a cortina da tragédia, só nos resta rir, embora com um travo amargo, desta comédia de costumes que insiste em transformar a imortalidade em uma caricatura mortalmente enfadonha.